Michel Temer – jogando xadrez com a Esfinge.

Um jogo de xadrez com uma peça a mais, a esfinge. É nisso que se tornou a precoce sucessão do Governo Dilma.

Nesse jogo de xadrez de múltiplos competidores participando ao mesmo tempo – todos contra todos, as pedras são movidas aleatoriamente segundo o interesse de cada competidor. Michel Temer é o favorito a vencê-lo, mas a passagem para seu nome é guardada pela Esfinge. E essa esfinge tem um nome: fim da reeleição. Decifrar seu enigma ou ser devorado por ela é o dilema de cada um dos jogadores.

A “solução Temer” para o caso Dilma vem sendo aventada tal como foi a “solução Itamar Franco” para o caso Collor. Uma saída consensual que acomodaria todas as questões envolvidas na atual crise e daria o tempo necessário para que as forças políticas se reorganizassem. O impeachment de Dilma seria, portanto, a decisão mais racional.

Ledo engano.

Além de ser um golpe de difícil execução, que demandaria só para se viabilizar institucionalmente da conivência de dois terços da Câmara e do Senado além de, pelo menos, seis ministros do STF, Dilma não é Collor e Temer não é Itamar.

Dilma tem atrás de si o PT e uma forte base popular de apoio, ainda que momentaneamente silenciosa. Mas, principalmente, Temer não está na posição de Itamar, ou seja, de aceitar um mandato tampão sem ambições maiores ao término desse mandato.

A ascensão de Temer à presidência antes da definição de que fim dar ao monstrengo criado por Eduardo Cunha, a PEC do fim da reeleição, cria um candidato poderoso a sua própria reeleição. Temer chegaria ao poder com a aura do “salvador da Pátria”. O mediador íntegro e experiente, nada do que acusá-lo, no comando da máquina administrativa por mais três anos, presidente do partido mais poderoso, no momento, e podendo fazer as coligações necessárias no Congresso. Como derrotá-lo em 2018?

Temer adiaria os planos de Alckmin para 2022. E Alckmin é o delfim da plutocracia brasileira que forma com a mídia mainstream e com setores da magistratura a verdadeira e poderosa oposição.

À possibilidade de um Michel Temer forte em 2018, muito mais interessante uma Dilma sangrando pelo restante do seu 2º mandato.

Essa é a esfinge que questiona quem está por trás das movimentações pró-impeachment. Elas são necessárias para manter o governo federal acuado. Elas não podem sair do controle. Eduardo Cunha deve ameaçar constantemente com a abertura do impeachment. Eduardo Cunha não pode iniciar o processo. Mas quem bota povo na rua e Eduardo Cunha no poder sabe que maneja uma faca sem cabo – só lâmina. Tirar Cunha do poder, talvez seja perder poder. Constrangê-lo é a melhor opção, se ele não desvairar de vez e se o PGR aceitar participar do aperto a Cunha sem lhe dar consequências finais. A esfinge tem muitas faces. Inclusive a do juiz Sergio Moro e seu véu de interesses, vaidade e ambições.

Michel Temer só interessa se não puder se reeleger. Mas o futuro da PEC do fim da reeleição está nas mãos de Renan Calheiros. Trair Temer amputando-lhe um possível segundo mandato e viabilizar o golpe do impeachment de Dilma e a eleição de Alckmin, esse é o poder e o dilema que estão postos nas mãos de Renan Calheiros, é sua esfinge. O seu possível indiciamento por Janot deveria ser olhado com cuidado por quem se interessa pelo jogo político.

Aécio joga por fora.

Seu tempo é curto. Em 2016, se perder as eleições em Minas, corre o risco se tornar insignificante fora do cenário político de Claudio-MG. Seu maior adversário, hoje, é Alckmin que já se viabilizou como o candidato do campo conservador.

Sua única esperança está depositada no TSE. Na ação de abuso do poder econômico contra a chapa Dilma-Temer. Aécio espera que o TSE casse Dilma e Temer e o emposse. Ou que o TSE determine a realização de novas eleições. Mas a decisão por novas eleições deveria ocorrer até o início do 2º semestre de 2016. Eduardo Cunha, se ainda for deputado, assumiria por 90 dias. Aécio teria feito Cunha presidente e concorreria à sua sucessão contra Lula. A partir de janeiro de 2017, no impedimento da chapa Dilma-Temer, o sucessor de Eduardo Cunha assumiria até o fim do mandato. Aécio também tem a sua esfinge.

O TSE já mandou arquivar a ação duas vezes e reabriu o caso em função das pressões da Lava Jato.

A tese de Aécio é fragilíssima. As doações para Dilma-Temer feitas pelas empreiteiras envolvidas na Lava Jato seriam fruto de propina e as doações feitas pelas mesmas empreiteiras para Aécio seriam legais. Nada além de outro golpe cuja consecução em nada interessa às forças de apoio de Alckmin. É útil mantê-lo, no entanto, como mais uma das formas de tirar o sono do governo federal.

Por fim, a esfinge pode assumir o rosto de Lula. Não o Lula candidato, mas o Lula articulador político.

Creio ser difícil a volta do crescimento econômico no governo Dilma. Mesmo que o ambiente político melhore, a conjuntura econômica internacional não deve se resolver a tempo. O segundo governo Dilma vai, a cada dia, ficando mais parecido com o segundo governo FHC. Com o PT inviabilizado, uma derrota em 2018 é um risco que Lula não tem nenhum motivo para correr. A candidatura à sucessão de Dilma por uma chapa invertida em relação a atual – PMBD e PT, com Temer presidente e, por exemplo, Jaques Wagner vice pode ser sim a “solução Temer” de Lula.

Aliás, a declaração de FHC de que Dilma é uma pessoa honrada com certeza nada tem de senilidade. Uma pessoa honrada não deveria estar sujeita a um impeachment. Ela faz parte do jogo de morde-e-sopra de quem está tentando interpretar a esfinge antes de mover a próxima peça.

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