O tempo do homem que eu sou.

Envolto no que é de sombras,

quando só os insanos professam inocências,

o homem que eu sou sabe-se condenado.

Crer na imparcialidade das leis é uma temeridade.

Partido em tempo e coração, o homem que eu sou

sabe que almejar a liberdade e a igualdade de direitos

como uma marca de nascença

é um crime contra a propriedade.

Lesa-majestade.

E como recurso inútil e desesperado,

tal qual um cão desamado

atado pelo pescoço

ao poste de sua pequenez inescapável,

o homem que eu sou canta e chora seu tempo

como em Itabira ou a leste de Berlim,

em Ipanema ou nas quatro esquinas

da Ipiranga com a São João

outros o choraram na vez de cada um.

E, então, o homem que eu sou

forma em batalhões de indignados

para, em nome da Pátria, da família e da moral,

justiçar pelas ruas os Cordeiros de Deus.

Responsáveis pelas minhas derrotas intransferíveis

e pelos meus pecados inconfessados,

pela minha libido insatisfeita

e pela minha ganância insaciada.

Suas faces ensanguentadas

resgatam para meus olhos cegos

a faculdade de, por fim, poder

olhar meu rosto no espelho

sincera e enganosamente

orgulhoso de ser

o homem que eu sou

no tempo que me é dado viver.

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1 comentário

  1. É quando dizem que a arte é reflexo do seu contexto histórico!
    Diante dessa poesia, que me fez lembrar notícias de jornais e meus próprios pensamentos inacabados de criança, só posso dizer: Caraca, muito bom!

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