Um elogio à agressão.

A Folha de São Paulo, novamente, busca naturalizar a agressão, a intolerância ideológica e a coação política. Para tanto, convoca um de seus principais jornalistas para fazer o elogio do mal e o escárnio das vítimas desse mal.

Um erro.

Um erro pessoal que depõem contra a postura ética do profissional, mas perfeitamente afinado com a linha editorial hoje adotada pelo veículo ao qual o jornalista está momentaneamente filiado.

Que mais dizer do texto de Rogério Gentile, ”Síndrome do restaurante cheio”, na Folha de São Paulo deste quatro de junho de 2015? Aliás, por ironia involuntária, um feriado cristão –Corpus Christi, uma celebração à comunhão com o sagrado.

O respeito ao próximo é sagrado para todos os que têm fé… no processo civilizatório. Mas para a Folha de São Paulo isso deve ser relativizado quando o próximo for um “petista”.

Para que não se perca pelo esquecimento: “Jornalistas não merecem ser estupradas”.

Em sua coluna, Gentile comenta as agressões a pessoas filiadas ao PT ocorridas ultimamente na cidade de São Paulo.

Haddad, Padilha e Mantega, este por duas vezes, foram agredidos por grupos com um perfil bem definido: brancos, da classe média e ideologicamente filiados à extrema direita. Mas Gentile parece não notar esse viés sociológico, e mesmo, sequer trata as agressões como tais. Prefere que consideremos que “protestos desse tipo fazem, sim, parte da democracia, assim como os aplausos e elogios”.

Estranho que Gentile não note que os petistas foram agredidos enquanto pessoas e não enquanto petista. Foram agredidos em momentos de suas vidas privadas e não quando atuando em eventos oficiais, ocasião em que, inclusive, teriam segurança policial. Mantega sequer faz mais parte de qualquer governo.

Para Gentile, trataram-se não de agressões, mas de “questionamentos” e demonstram que o Brasil já pertence às grandes democracias onde “autoridades podem ser questionadas na lata, cara a cara, sem que o autor seja punido”.

Como contraponto, Gentile cita alguns lugares onde tal “manifestação democrática” não seria possível: Cuba – Gentile não perderia a oportunidade, China e Coréia do Norte.

Poderia também citar a Rússia de Putin ou a Arábia Saudita. Mas creio que Gentile quis se ater às “ditaduras comunistas” e fazer alguma ironia com o PT, um partido de esquerda. Acabou por se parecer com Bush, o cordial ex-presidente americano, e o seu “eixo do mal”.

E para demonstrar que os petistas, na verdade, provam do mesmo veneno que também utilizam, Gentile une Collor a FHC em um conjunto que quer por homegêneo denomidado “adversários do PT” – como se não fossem adversários entre si e de todos os demais partidos que não os seus próprios.

“Há de se considerar também que protestos verbais, ainda que grosseiros e lamentáveis, são mais admissíveis e fáceis de assimilar do que aqueles que os adversários do PT costumavam sofrer quando estavam no governo”.

Interessante contorcionismo associativo e ético. Além de considerar que um erro possa ser justificado por outro anterior, considera que existiriam agressões que seriam admissíveis e fáceis de assimilar dependendo da vítima tratar-se de aliado ou adversário do PT.

Transforma também a CUT e o MST no próprio PT, o que é o mesmo que transformar a Força Sindical e os “Revoltados Online” no PSDB e, então, retroage duas décadas para lembrar que já ocorreram casos de agressões ao espectro político oposto ao do PT.

Em 1991, manifestantes da CUT e do MST … atiraram pedras, ovos e lama em Collor… Quatro anos depois, … simpatizantes do petismo [será que Getile chamaria os que agrediram Mantega de simpatizante do peessedebismo?] apedrejaram o ônibus que conduzia FHC”.

Nem precisaria ir tão longe, no tempo e no espaço, para para ilustrar poderes antidemocráticos.

Há dias, em um protesto na USP – Universidade de São Paulo, um policial agrediu covardemente uma jovem manifestante com murro na cara – a Folha noticiou o fato como um “confronto” com a PM. O confronto do rosto da moça com o punho cerrado do PM. Dias depois, Alckmin censurou a vinculação de cartuns de colegas do próprio Gentile com, estes sim, questionamentos à criminalização das drogas. A Folha fez muxoxo em um editorial e ficou tudo por isso mesmo. E nunca é ocioso lembrar se das cabeças dos professores rachadas por Beto Richa – governador do Paraná.

Não, Gentile, não é necessário citar Cuba ou referenciar a “cortina de ferro”. Basta ver como os governos apoiados por seus patrões são abertos a “questionamentos”. O Haiti ainda é aqui.

Mesmo assim, as agressões sofridas por Collor e FHC, 20 anos atrás, teriam sido tratadas pela Folha de São Paulo com os eufemismos de hoje, ou seja, como se nada mais fossem além de “situações chatas e desagradáveisou foi feita a denúncia da intolerância de “setores ligados ao PT”?

Uma breve pesquisa à recente capa da Folha de São Paulo de 25 de fevereiro de 2015 esclarece a questão. A reação de sindicalistas aos agentes provocadores que tentavam tumultuar uma manifestação a favor da Petrobrás recebeu o seguinte adjetivo da Folha: brutalidade.

Já, as agressões a petista apenas “refletem certa falta de noção e de educação”.

Não está fácil ser petista em São Paulo. Depois do mensalão, do petrolão e da crise econômica, cada vez que uma personalidade do partido se aventura a circular pela cidade, corre o risco de passar por algum constrangimento”.

Não, Gentile, mensalão e petrolão – novilínguas criadas pela Folha de São Paulo para estigmatizar o PT, ou mesmo a crise econômica, são apenas subterfúgios para o exercício do poder depravado e para agressão e a intolerância ao diferente, ao outro. E não restringe suas vítimas a petistas.

Gentile deve conhecer bem os jornalistas Guga Noblat e André Caramante. Não creio que os denominasse como petistas.

Noblat foi agredido enquanto passeava com sua filha de colo. Não, uma criança de colo não deteve a sanha dos “indignados”. Seu crime? Usava uma camisa vermelha – cor associada ao PT e ao América FC. Caramante foi ameaçado de morte e precisou exilar-se. Seu crime? Denunciou a violência policial. Caramante trabalhou na mesma Folha de São Paulo de Gentile. O pivô de sua agressão é deputado estadual pelo PSDB e leva a vida, desde então, sem que a Folha lhe faça qualquer reparo.

Os agressores de ambos eram os mesmos que agrediram Padilha, Haddad e Mantega – reacionários de extrema direita. Evito o termo fascistas dado que a maioria deles não tem a extensão intelectual necessária para se entenderem como fascistas, mesmos fascistas sendo. Os motivos eram os mesmos, intimidar pessoas identificadas com posturas “desviantes” em relação à dos agressores. Não é o caso de citar as várias agressões a homossexuais, mas também não há porque esquecê-las.

Ou seja, é impossível ler o texto de Gentile e não perceber que qualquer concordância com a “síndrome do restaurante cheio” carreaga um quê de “síndrome de Estocolmo”.

Por fim, Rogério Gentile – o jornalista em erro, cede lugar a Danilo Gentili – o comediante desgraçado. E, como o tal, se torna grosseiro ao querer fazer graça quando aconselha aos petistas que para evitar problemas deveriam sair às ruas disfarçados:

“Como ensinam os artistas, jogadores de futebol e celebridades “BBBs”, gorro, peruca e óculos escuros são extremamente úteis para quem não deseja ser reconhecido em local público”.

O texto de Rogério Gentile é um erro. E Rogério Gentile, por ele, um tolo a serviço do mal.

O ovo da serpente necessita de tolos que o choquem.

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