O país que poderia ter sido e não foi.

Mais uma vez, o Brasil me parece como o doloroso verso síntese de Manuel Bandeira em “Pneumotórax”: a vida inteira que poderia ter sido e não foi.

Menino crescido na ditadura, aprendi que o Brasil era o país do futuro.

Próximo dos sessenta, me parece mais adequado imaginar que o futuro para o Brasil é uma ilusão de ótica. Como um país que viajando em uma grande curva de 360°, o que enxergasse como futuro não fosse mais que uma eterna volta ao passado.

Quantas vezes o futuro já nos pareceu tão próximo das mãos? Quantas vezes apenas nos iludíamos, e o que nos aparecia à frente era apenas o que poderia ter sido, e não foi?

A “Nova República” que poderia ter sido e não foi.

Vinte e um anos de ditadura chegava ao fim, o futuro nos sorria com os dentes alvos da liberdade. Por que Tancredo eleito não pegou o avião e não voou para São Paulo, para um dos seus melhores hospitais? Porque, fiel à sua memória e ao passado, esperava um golpe se o fizesse. Veio a morte e com ela Sarney. Até pelos jaquetões que envergava, Sarney com seus bigodes pintados de preto não poderia ser o futuro. Faria boa figura na República Velha.

A modernidade com Collor que poderia ter sido e não foi.

Críamos Collor o jovem cosmopolita, empreendedor com ideias arejadas e visão de futuro, era só mais um voluntarioso herdeiro da nossa aristocracia rural aferrada a seus desmandos e privilégios de nascença. Aécio não teria sido diferente.

A era da racionalidade com FHC que poderia ter sido e não foi.

Criamos FHC um representante da nossa intelectualidade que finalmente chegava ao poder. Era só mais um componente da classe média paulistana, preconceituosa, sonhando com um “primeiro mundo que não é aqui” e buscando um cargo público bem remunerado onde pudesse gozar dos benefícios de uma aposentadoria integral sem ter que trabalhar para chegar até ela.

A socialdemocracia com Lula que poderia ter sido e não foi.

Críamos o como um sábio formado na escola da vida severina. Mostrou-se um sonhador ingênuo e apaixonado. Lula cometeu um erro fatal tal qual Tancredo. No seu caso, o de desmobilizar as forças sociais que lhe davam apoio. Evitou o confronto, acreditou no processo democrático. Esqueceu as lições que as batalhas do sindicalismo lhe ensinaram. A luta de classes não acabou quando um operário chegou ao poder, antes, ali começava.

Por fim, Dilma é o 68 temporão que foi e não deveria ter sido.

Meio século depois, em um Brasil que, como o menino do tambor, parece se recusar a crescer, maconha, aborto, religião, marchas das famílias com Deus, Cuba e homossexualidade voltaram a ser pautas discutidas nas ruas radicalizadas pelo apelo à “moralidade e ao combate à corrupção”. Mas Dilma não pode ser responsabilizada por isso. Dilma não teve chance de colocar esses temas em discussão. Quando chegou ao poder, a parte da sociedade que tem voz já completara a curva de volta a 1960. Se Dilma pode ser responsabilizada por um erro, é o de ter, em tempos de vacas magras, acreditado em Jorge Gerdau e Joaquim Levy.

O que nos resta?

Mais uma vez, a espera do futuro, coloco na vitrola um tango argentino.

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