O momento em que o Brasil chutou o pau da barraca.

O quadrimestre que vai de janeiro a abril de 2013 representou o ponto de viragem do Brasil de sucesso de Lula para o Brasil do caos de Dilma.

Em 2012, o Brasil vivia um grande momento. Por que os empresários não apostaram no país, então? Não tenho a resposta, mas a crise de 2015 é consequência disso. 

O inferno de 2015, ou em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.

Parece senso comum que o caos político que o Brasil vive neste ano de 2015 tem um fundo econômico – o baixo crescimento.

Um governo que se quer trabalhista sendo obrigado a cortar direitos dos trabalhadores. Um ministro da fazenda vindo do empresariado buscando fazer um ajuste fiscal que aumenta os impostos das empresas.

Executivo e Legislativo fragilizados e paralisados à espera de um Judiciário hiperativo que parece querer purgar na pira dos justos os nossos cinco séculos de história depravada.

Empresários poderosos encarcerados ”preventivamente”, a Petrobras, a maior empresa do Brasil e uma das maiores do mundo, e suas fornecedoras sem crédito para tocar seus projetos.

Pelas ruas, uma minoria ruidosa e oportunista, cheia de ódio, desrespeita a vontade de uma maioria silenciosa e marcha pelo impeachment da presidente recém-eleita democraticamente.

Quem se arriscaria a colocar um tostão no futuro do “país do futuro”?

Não espanta, portanto, a manchete do Jornal Valor Econômico de 03mar2015 – “Grande empresa corta investimento”. Combinada com a da Folha de São Paulo, são o retrato do Brasil atual. O Brasil a procura de um “salvador da Pátria”, enquanto os que realmente a poderiam salvar se retraem.

Interessante, contudo, é perceber as empresas citadas na reportagem do Valor.

 

O paraíso de 2012, ou ano em que quem pediu levou.

A repetição de alguns nomes lembrou-me um momento diametralmente oposto onde eles também estiveram presentes. Uma reunião de empresários com a presidente Dilma no inicio do ano de 2012 para discutir o futuro e o progresso do país.

Com o mundo em recessão, o que significava não contar mais com o seguro das commodities valorizadas, a única forma de manter o Brasil fora da crise era investir no mercado interno. A inclusão social dos anos Lula havia, pela primeira vez na nossa história, criado um poderoso mercado de massa. Mas o crescimento já dava sinais de não poder ser mantido apenas com a transferência de renda para as classes mais pobres e com a facilidade de crédito. Esse ciclo dava sinais de esgotamento, era necessário um novo ciclo de investimentos.

E nesse sentido, foram criadas, em 2012, todas as condições que a literatura elenca como necessárias para alavancar o desenvolvimento econômico.

A reunião da presidente com os empresários era parte desse esforço para alavancar o crescimento. O governo ouvia dos empresários as suas reivindicações e dava a eles as condições necessárias para o investimento privado.

Um saco de bondades.

No Brasil a carga tributária sufocava o investimento. Era necessário reduzi-la. E o governo providenciou uma desoneração dessa carga tributária.

No Brasil os custos de produção são muito altos. O governo providenciou a redução do custo de insumos básicos.

Os juros devem ser de tal ordem que sejam atrativos aos investimentos. O governo em 2012 capitaneava uma redução de juros histórica, chegando mesmo a mudar a forma de remuneração da poupança para poder levar as taxas de juros a patamares “educados” e supostamente atrativos aos investimentos na economia real.

É necessária estabilidade econômica para pode-se planejar os investimentos. Pois a inflação, a grande vilã dos investimentos, estava sob controle e dentro da meta estabelecida.

É necessário um mercado consumidor crescente e com poder aquisitivo que justifique investimentos em aumento de produção. Os governos Lula haviam incluído milhões de pessoas na classe média não só por transferência de renda, mas por aumento do emprego formal.

E sim, ao final de 2012 o cenário era tão animador que a imprensa de oposição necessitava de contorcionismos para transformar boas notícias em más. Eram alvos de piadas, tinham inventado o jornalismo de “conjunção adversativa”.

Um bom exemplo desse tipo de jornalismo foram as notícias sobre as vendas do ano.

A BOVESPA também estava cheia de boas notícias.

O câmbio era problema? Era.

Um câmbio na casa de R$ 2,00 não favorece em nada as indústrias nacionais. O Brasil entrou em uma armadilha com o câmbio flutuante. A partir dele, as condições econômicas dos EEUU é que passaram a determinar a taxa de câmbio no Brasil. Mesmo assim, ou até por isso, no entanto, ao final de 2012, dólar estava em alta.

Mas, mesmo com o câmbio fora do seu ponto de equilíbiro, as contas externas estavam positivas. O Brasil era superavitário em 2012, apesar de todo o jornalismo de “conjunção adversativa”.

Enfim, em 2012, o quadro era tão positivo que o governo colheu vitórias nas eleições para prefeitos mesmo em redutos do antipetismo mais militante.

A virada de 2013, ou quando nem o “tudo de bom” é suficiente.

O ano de 2012 foi, portanto, o ano em que o governo buscou criar as melhores condições para o crescimento econômico do país. Excetuando-se o pouco que poderíamos fazer quanto ao câmbio, havia interlocução com empresários, estabilidade política, juros baixos, redução de tributos e custos de insumos básicos e o mercado de consumo interno estava mantido por pleno emprego. Mais ainda, o mundo vivia seu quarto ano da maior crise econômica desde 1929 e o Brasil parecia ser um porto seguro imune à crise externa.

Nada disso bastou.

Março de 2013 nos trouxe a notícia, os empresários não investiram. Nada mais explícito disso do que a rubrica “investimentos” na formação do PIB de 2012 – retroagiu. Foram menos 4%.

A bem da verdade, quando se analisa o Relatório Anual do BNDES, a impressão que fica é a de que apenas o governo investiu. Os destaques são a infraestrutura – eletricidade e transporte e a indústria de petróleo e combustíveis. Áreas de forte atuação governamental.

Por que o governo não ganhou corações e mentes empresariais? Por que, com condições favoráveis para o investimento, o empresariado preferiu “realizar lucros”? O que faltou para despertar o tal “espírito animal”?

Não tenho respostas. Mas para quem se interessar, há uma grande matéria com o professor Bresser-Pereira sobre o assunto na Folha de São Paulo de 01mar2015 – ”Ricos nutrem ódio ao PT”.

Destaco apenas três momentos da entrevista que julgo relevantes para esta discussão: por que o governo não ganhou corações e mentes empresariais?

“Como define a burguesia hoje?

É muito mais fraca do que nos anos 1950. Tudo foi comprado pelas multinacionais. O processo de desnacionalização é profundo. Todos que venderam suas empresas viraram rentistas, estão do outro lado”

“Desnacionalização preocupa?

Profundamente. É uma tragédia. Vejo uma quantidade infinita de áreas dominadas por empresas multinacionais que não estão trazendo nenhuma tecnologia, nada. Simplesmente compram empresas nacionais e estão mandando belos lucros e dividendos para lá. Isso enfraquece profundamente a classe empresarial brasileira e, assim, a nação”.

“Não é fato que muitas empresas ganham mais com o mercado financeiro do que com a produção?

Isso também. Na hora em que se transforma uma indústria numa maquiladora, o câmbio já não importa mais. Porque se importa tudo. É até bom que seja alto porque seu produto fica barato. O câmbio é importante quando há conteúdo nacional e se paga salários para trabalhadores e para engenheiros. Quando não se paga nada disso, acabou, não é mais empresário industrial”.

E, nesse sentido, talvez devamos recordar a grita que se seguiu ao ponto mais baixo da nossa taxa de juros. Talvez o professor tenha razão, juros baixos incomodam os poderosos.

Tendo frustrados seus esforços, o governo cede à pressão rentista, os juros voltarão a subir em abril de 2013 e irão em um continnum bater 2015 com previsão de 13% ao ano para a taxa SELIC.

Os empresários não tinham, no entanto, motivos para estarem insatisfeitos. Sem fazer investimentos e no meio da crise mundial, com empresas quebrando nos EEUU e na Europa suas empresas eram lucrativas. Mas estavam insatisfeitos, queixavam-se de que o lucro era pouco.

O Brasil, país do futuro, deverá aguardar mais um pouco.

Espero que um dia o professor Bresser-Pereira desenvolva uma teoria definitiva sobre a lógica das ações do empresariado brasileiro. Mas o certo é que, já em abril de 2013, estava claro que o crescimento não viria.

A partir daí, a imprensa de oposição passa a fazer uma campanha redobrada para destruir as expectativas racionais da população.

Sem investimentos dos empresários, com o PIB abaixo de 1% e com a demanda em alta, apostaram na inflação. Erraram mais uma vez, a inflação não veio. O ano de 2013 fechou com uma inflação dentro da meta, 5,91% com vendas em alta, mas com um crescimento do PIB de 2,3%. Com o consumo em alta e com o crescimento em baixa, eram as importações que fechavam a conta.

Em abril de 2013, o Brasil voltara para a armadilha de câmbio apreciado e juros altos. A crise econômica era só uma questão de tempo.

A tempestade perfeita. À crise econômica soma-se a crise política.

Em junho de 2013, um movimento da esquerda estudantil, o MPL – Movimento Passe Livre, protesta mais uma vez contra o aumento do preço das passagens dos ônibus urbanos. Na cidade de São Paulo, epicentro dos protestos, a tarifa estava represada havia anos e o aumento de R$ 0,20 não era significativo. Os estudantes são tratados pela imprensa como um “bando de baderneiros”. Em uma das passeatas, a polícia de Alckmin atira com balas de borracha nos manifestantes. Uma jornalista da Folha de São Paulo é ferida e isso muda radicalmente a posição da imprensa em relação às manifestações. O povo é chamado às ruas.

Numa das mais hábeis instrumentalizações da opinião pública já vista neste país, a imprensa de oposição associa os protestos com as insatisfações da classe-média que não se julgava beneficiada pelas ações de inclusão do governo federal e, dado o baixo crescimento, não enxergava melhorias no horizonte. Os protestos passam a ser direcionados contra o governo Dilma e seu partido, o PT. Não é mais “apenas por vinte centavos” é “contra tudo isso que está aí”.

O momento em que o Brasil chutou o pau da barraca.

Apesar do baixo crescimento econômico continuado, de toda a agitação política e do Brasil ter perdido a Copa do Mundo, antes de chegar ao inferno de 2015, o governo Dilma, paradoxalmente, vai vencer as eleições presidenciais de 2014. Os partidos de oposição não apresentaram se como alternativa confiável – eram os antipetistas e a inclusão social ainda era trunfo do PT.

O apoio dos pobres o governo conservara, mas desde o primeiro quadrimestre de 2013, estava claro que o empresariado já havia chutado o pau da barraca.

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