A liberdade de expressão e a dor do profeta alheio.

Inútil perguntar aos que a têm se a liberdade de expressão é um valor absoluto. Melhor perguntar aos que pagam com dor o preço dessa liberdade. Aos que pagaram com a vida, não há mais o que perguntar.

liberdade de expressão

Desde o atentado ao Charlie Hebdo, tenho visto vários argumentos com variações sobre o mesmo tema de que “temos de respeitar a liberdade de expressão, por mais abjeta que seja a forma pela qual ela se manifeste”.

Para quem viveu sob censura, não é difícil concordar com isso. Mas há algo que me incomoda muito nessa formulação. A atenuante “por mais abjeta que seja a forma pela qual ela se manifeste”.

Não, claro que não. Então, seria concordar com o abjeto. E é espantoso como encontramos tantos concordando com isso.

Caíram na armadilha de concordar com valores absolutos?

O mesmo se dá com posições maniqueístas em relação ao próprio Charlie Hebdo. Qualquer crítica é tratada por alguns com o seguinte argumento: “Não ser Charlie, e aqui é sê-lo completamente, é o mesmo que concordar que os cartunistas mereceram ser assassinados. E emendam logo em seguida e em reforço – é o mesmo que concordar que as mulheres estupradas mereceram a violência que sofreram”.

É óbvio que é uma falácia fácil de ser reconhecida como tal. Trata-se de crer, ou tentar fazer crer, que existe tão somente o bem contra o mal, o branco e o preto sem nenhum tom de cinza entre eles. Mas como a temos ouvido isso de bocas que se consideram consenciosas.

Tal posição não interditaria o debate?

E, no entanto, apesar do quanto choque que o atentado nos causou possa estar fazendo a emoção nublar nossa racionalidade, a realidade nos grita a porta.

Alguns dias após o atentado o comediante Dieudonné, que já se apresentou praticando a “quenelle” – simulação da saudação nazista, fez a seguinte declaração: “Esta noite, naquilo que me diz respeito, sinto-me Charlie Coulibaly”.

Poderia dizer que estava falando dos negros, já que Coulibaly é tão preto quanto ele, Dieudonné. Teve o cuidado de no comentário incluir a expressão “no que me diz respeito”. Apesar disso não é difícil perceber que sua declaração foi no mínimo inapropriada para o momento de comoção que a França vive. Além de que qualquer elogio a um assassino de judeus ofende aos judeus.

Não houve cuidados com a liberdade de expressão. Dieudonné foi preso por apologia ao terrorismo. Parece que em seguida foi liberado.

Israel é visto por boa parte do mundo como um Estado opressor do povo palestino. As pretensões do governo israelense atual de tornar Israel um “Estado judeu” são facilmente associáveis ao racismo. Ou seja, não faltam motivos para quem se julgar motivado a protestar contra as posturas israelensess. Mas em que medida as ações de Dieudonné denunciam essa situação? Talvez em nenhuma medida, mas, sem dúvida, causam sofrimento aos judeus.

Reconheço, não recordo de ter ouvido falar de Charlie Hebdo antes do atentado. Choquei-me com mais um massacre. Fui então conhecer as suas charges. Motivos não faltam para se protestar contra a ideologia da violência que se apoia no islamismo para tentar se justificar. Opressão de mulheres, castigos físicos, atentados, massacres. Ocorre que as charges do Chalie que vi não se dirigiam diretamente a esses temas. Mas muitas delas faziam sátiras com a figura do profeta Maomé. Em que isso denuncia as atrocidades cometidas em nome do Islã? Talvez em nada, mas sem dúvida causa sofrimento aos muçulmanos.

Com uma agravante, não me parece que comunidades judaicas estejam em condição de vulnerabilidade em alguma parte, pelo menos, no Ocidente. As católicas que também receberam tratamento cáustico, muito menos. O mesmo não se pode dizer dos imigrantes muçulmanos na Europa e de seus descendetes já europeus. Logo, na França, as charges do Charlie acabavam reforçando estereótipos contra os fracos.

Ser uma forma de confrontar os fortes e o poder é uma das alegações da defesa do humor corrosivo. Conquanto a posição anticlerical possa também ser assim considerada – uma luta contra o poder, não me parece que esse era o caso na França do Charlie Hebdo.

Caso encerrado?

Não. Poderia citar aqui as dores do parto da blogosfera brasileira e a mão das ações juduciais sufocando-lhe boca e narinas como em um infanticídio e a liberdade de expressão como o ar da democracia. Seria correto, mas seria pouco, pois como a irracionalidade humana não conhece limites, neste mesmo instante, um blogueiro está sofrendo sevicias semanais – 50 chibatadas – na Arábia Saudita apenas por ter ameaçado um rei pelo fato de ter opinião – e ousar manifestá-la.

Não há um Charlie Hebdo na Arábia Saudita. A liberdade de expressão clama por um.

Porque, só quem pode dizer se a liberdade de expressão é um valor absoluto são aqueles que pagam com dor o preço dessa liberdade. Pois suas dores também são absolutas.

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