O PT no poder: nossa Bastilha sem revolução e sem guilhotina.

Seremos capazes de construir uma nova ordem social sem confronto?

bastilha

Em exatos 15 dias, entre os dias 15 e 30 de dezembro de 2014, quatro grandes jornalistas, Luis Nassif, Paulo Nogueira, Saul Leblon e o mestre Janio de Freitas escrevem artigos em que tentam racionalizar a insólita crise do governo petista. Três desses grandes jornalistas fazem duras criticas ao PT, um, pelo menos, vê esperanças em um rearranjo das forças progressistas.

Às vésperas da posse de Dilma Rousseff , vencedora da mais acirrada eleição pós-redemocratização, com o PT iniciando seu quarto mandato consecutivo e sendo tais jornalistas esteios do pensamento progressista na imprensa, tais artigos deveriam soar-nos estranhos. Por que então nos parecem tão sensatos?

O PT não é mais o PT.  O “PT de Lutas”, o grande “PT de Lutas”, com sua poderosa base sindical e movimentos populares, não resistiu ao “PT do Lula Lá” que assumiu o governo em 2002. O “PT do Lula Lá” estará subindo a rampa do Planalto com a vitória de Dilma em 2014, o “PT de Lutas” se debate em dúvidas e desencanto.

O desencanto parece ser patente a ponto dos vencedores das eleições presidenciais de 2014 agirem como perdedores e os perdedores cantarem vitória.

Não sem razão. A união de forças da direita sempre existiu, mas ela levar povo às ruas era coisa inaudita por mim em meus mais de meio século de vida. Acham-se fortes para não precisar respeitar decisões democráticas. Chamam para o confronto. Mas elas mesmas nunca foram confrontadas nos governos petistas.

E talvez seja esse confronto inevitável se deseja se construir uma nova ordem social no Brasil.

Por que, então, foi adiado de 2002 até hoje?

Porque inicialmente não havia força para isso e porque no momento certo não travou-se o bom combate.

Vejamos.

A esquerda havia que endurecer, mas apenas lhe restava a ternura.

O PT só foi forte na oposição, quando assume o poder federal, o faz sem poder contar com um movimento de esquerda robusto para confrontar as forças da direita.

Nesse ponto, na falta de confronto às forças reacionárias, retroagiu-se a um estágio anterior aos anos 80, quando um movimento sindical combativo e organizações sociais atuantes, principalmente organizações da Igreja ligadas a Teologia da Libertação, conquistaram junto à burguesia o respeito pelas classes operárias. Em muito, respeito por medo, respeito ainda assim.

Ocorre que entre essa época, os anos 80, e a chegada do PT à presidência, transformações na organização social do Brasil e do mundo minaram esse poder popular.

No mundo, o pontificado de João Paulo II imobilizou os movimentos da Teologia da Libertação e no seio da Igreja católica no Brasil assumiu o poder sua porção conservadora e reacionária paralisando os movimentos sociais que dela dependiam. A queda do Muro de Berlim simbolizou um momento de baixa para a ideologia de esquerda. No Brasil, os governos FHC, que conquistaram corações e mentes com a bandeira socialdemocrata e o engodo do “real forte”, aliam-se ao conservadorismo do “Consenso de Washington” e protegido pelas mesmas forças que hoje se unem contra os governos petistas promovem com suas crises, através do desemprego e da precarização das relações trabalhistas o desmonte do sindicalismo, base do petismo.

Com os movimentos sociais manietados, com o sindicalismo enfraquecido e com os intelectuais de esquerda repensando a própria ideologia, em 2002, “Lulinha paz e amor” elege-se porque a esperança vencia o medo. O governo FHC cai de podre, literalmente, não é derrubado. As forças reacionárias não estavam acudas por um movimento de esquerda tal quais os que levaram a governos esquerdistas na Venezuela e na Bolívia. Estavam momentaneamente inviabilizadas politicamente.

O governo Lula não assume em uma posição de força, só sua fraqueza poderia explicar Henrique Meirelles no Banco Central como fiador das forças de mercado.

Lula não é nosso Robespierre.

Por enfraquecido que tenha sido o início do governo, houve tempo para fortalecer a musculatura institucional, pois foi apenas em 2005, quando Lula e o PT já haviam se assenhoreado da máquina pública, que as forças reacionárias se sentiram fortes para desafiar-lhe o poder.

Mas Lula não é Robespierre, é um conciliador, quis-se por republicano, jamais confrontou as forças conservadoras. Elas, no entanto, sempre o tiveram como inimigo.

E, a partir do momento em que o presidente do STF em um gesto de atrevimento e audácia chama o presidente da República às falas e este não reage, e mais, em um outro episódio, entrega-lhe a cabeça do diretor geral da Polícia Federal ou quando permite que os principais quadros de seu partido sejam tratados como batedores de carteira por ventanista da oposição sem qualquer reação, perderam dele qualquer receio ou medo. O outrora poderoso PT era, agora, um tigre de papel.

Por que, em qualquer desses momentos, o enorme capital político de que dispunha e fora duramente amealhado, a militância do “PT de Lutas” e as organizações sociais a ele filiadas, não foi posto nas ruas para defender o governo que, em última instância, era o “seu” governo, ainda é coisa para a qual não tenho explicação.

Evitou se o confronto, mas o movimento social de apoio perdeu força de mobilização.

Lula se manteve por dois mandatos no poder por ser um gênio político e porque o país era tão injusto que uma mínima melhoria das condições de vida da população mais pobre – não passavam mais fome, e uma pequena recuperação do poder aquisitivo do proletariado que podia então assumir prestações de até 48 meses, pareceu ser uma revolução social.

De cima desse capital, o PT ganhou mais duas eleições.

Retornamos agora ao início do texto, por que, então, o desencanto parece ser patente a ponto dos vencedores das eleições presidenciais de 2014 agirem como perdedores e os perdedores cantarem vitória?

Porque, se a vitória em 2014 pode evitar que “um personagem medíocre e grotesco desempenhasse o papel de herói”, do mesmo modo, o confronto, talvez necessário para o estabelecimento da autoridade dos vencedores para implantarem seu modelo de governaça, foi adiado mais uma vez. E lá se vai doze anos.

Seremos capazes de construir uma nova ordem social sem confronto?

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